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Passar um camelo pelo fundo da agulha

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“E outra vez vos digo que é mais fácil passar um camelo pelo fundo de uma agulha do que entrar um rico no Reino de Deus.” (Mateus 19:24)

Poucas declarações de Jesus provocaram tanta perplexidade hermenêutica quanto a imagem do camelo e do fundo da agulha. A força dessa afirmação reside justamente em seu caráter intencionalmente excessivo, quase escandaloso. Jesus não está oferecendo uma máxima moral confortável nem um aforismo espiritual suavizado. Ele está desconstruindo, com uma única imagem, uma cosmovisão inteira, especialmente aquela que associa prosperidade, mérito religioso e favor divino.

A linguagem de Jesus, embora marcada pela hipérbole, não é imprecisa. Ao contrário, ela é retoricamente controlada e teologicamente cirúrgica. O termo grego empregado por Mateus, rhaphídos, refere-se a uma agulha real, comum, doméstica, utilizada no cotidiano. Marcos e Lucas reforçam essa leitura ao empregar termos igualmente concretos, sendo que Lucas, médico, recorre a belónē, frequentemente associada a instrumentos cirúrgicos. O contraste, portanto, não poderia ser mais explícito: o maior animal domesticado da Palestina antiga frente ao menor objeto funcional do ambiente doméstico. A linguagem não foi escolhida para ser explicada, mas para ser sentida, causando impacto imediato e desconforto espiritual.

Figura 1 – O camelo diante da agulha 
Ilustração simbólica do contraste hiperbólico empregado por Jesus: o maior animal domesticado do contexto palestino antigo diante do menor instrumento doméstico. A imagem enfatiza a impossibilidade física como recurso pedagógico e teológico.
Fonte: Elaboração própria.

Desde a Idade Média, surgiram tentativas de domesticar a radicalidade dessa afirmação. Uma das mais conhecidas sugere que Jesus estaria aludindo a uma suposta porta menor em Jerusalém, chamada fundo da agulha, pela qual um camelo poderia passar apenas ajoelhado e sem carga. Essa leitura, ainda popular em ambientes devocionais, carece completamente de sustentação histórica. A Bíblia de Estudo Arqueológica NVI é categórica ao afirmar que essa hipótese não apenas é infundada, como reduz a força deliberada da fala de Jesus. Em termos teológicos, trata-se de uma tentativa de transformar uma impossibilidade espiritual em uma dificuldade logística, alterando profundamente o sentido do texto.

Figura 2 – Suposta porta menor em Jerusalém, chamada “fundo da agulha”
Representação ilustrativa de uma tradição medieval tardia frequentemente associada a Mateus 19:24. Não há evidências arqueológicas ou históricas de que tal porta existisse em Jerusalém no século I ou tivesse esse nome. 
Fonte: Alamy.

Pesquisas arqueológicas contemporâneas reforçam essa conclusão. Especialistas em Arqueologia Bíblica afirmam de maneira inequívoca que não há qualquer evidência da existência de uma porta chamada fundo da agulha em Jerusalém em qualquer período antigo relevante. A imagem do camelo sendo puxado, descarregado e forçado a entrar pertence ao campo da lenda religiosa, não da história. Tentativas semelhantes surgem quando se associam as palavras de Jesus às seteeiras, fendas verticais em muralhas usadas para defesa militar. Embora visualmente sugestivas, essas estruturas preservadas hoje em Jerusalém datam majoritariamente do período otomano, sendo, portanto, anacrônicas em relação ao ministério de Jesus.

Outra hipótese recorrente sugere um erro de tradução, afirmando que Jesus teria dito kámilos, corda grossa, em vez de kámelos, camelo. No entanto, os manuscritos gregos são consistentes e inequívocos. O texto fala do animal. Além disso, a hipérbole extrema era um recurso comum no ensino rabínico do período. Expressões semelhantes circulavam no Oriente Próximo antigo, inclusive na Babilônia, onde se dizia ser mais fácil um elefante passar pelo fundo de uma agulha. Jesus não está inovando na retórica, mas radicalizando sua aplicação teológica.

Embora a chamada “teoria da porta” seja frequentemente apresentada como tradição antiga, sua origem documentável é relativamente tardia. A referência mais antiga identificável com segurança aparece na Catena Aurea, compilação patrística organizada por Tomás de Aquino, que atribui a Anselmo de Cantuária a ideia de uma porta estreita em Jerusalém. Contudo, não há registro dessa interpretação nos escritos originais conhecidos de Anselmo, nem evidência de que ele tivesse acesso a tradições arquitetônicas da cidade santa. Considerando seu contexto histórico, é improvável que tenha sido o originador dessa explicação. O mais plausível é que tenha reproduzido uma tradição já circulante, sem respaldo histórico verificável.

Tentativas de atribuir essa leitura a Teofilacto de Ocrida também não se sustentam. Em seus comentários aos Evangelhos, ele afirma explicitamente que, enquanto alguém permanece rico, isto é, enquanto possui em excesso o que falta a outros, é impossível que entre no Reino de Deus. Sua ênfase não está em um camelo sendo descarregado para atravessar um espaço estreito, mas na transformação radical da condição do rico. Em seu comentário ao Evangelho de Marcos, Teofilacto reforça que o exemplo do camelo e da agulha ilustra uma impossibilidade absoluta. Algo semelhante ocorre em Jerônimo, que igualmente reconhece o caráter impossível da imagem, ainda que ensaie leituras alegóricas como forma de aliviar a dureza do texto. Essas tentativas revelam um impulso recorrente na história da interpretação do texto em suavizar o impacto da palavra de Jesus.

O diálogo entre Jesus e o jovem rico esclarece decisivamente essa questão. O homem corre, ajoelha-se, chama Jesus de Bom Mestre e declara obediência aos mandamentos. Tudo parece em ordem, exceto o coração. O evangelista registra que Jesus olhou para ele e o amou. A exigência que se segue não nasce de severidade, mas de amor revelador. Ao ser confrontado com a necessidade de abrir mão de suas posses, o jovem se retira triste. O apego revela-se mais forte que a devoção. O choque não se limita ao indivíduo, mas atinge toda uma teologia implícita da prosperidade meritória comum ao judaísmo do período.

A tradição pentecostal, fiel às Escrituras, jamais dissocia poder espiritual de cruz e rendição. Não há enchimento sem esvaziamento. O Espírito Santo não ocupa um coração saturado de autossuficiência, seja ela material, intelectual ou religiosa. Nesse sentido, a figura do Cordeiro torna-se teologicamente decisiva. Enquanto o camelo simboliza força, carga e resistência humana, o Cordeiro simboliza entrega, obediência e esvaziamento. Ele atravessa porque foi moído, humilhado e oferecido. O poder do alto repousa apenas sobre vidas rendidas.

A fala final de Jesus não suaviza a metáfora, mas a confirma. Ao declarar que para os homens é impossível, mas para Deus todas as coisas são possíveis, Ele não corrige a imagem do camelo e da agulha, Ele a sela. O Reino de Deus não se abre por adequação moral, disciplina religiosa ou rearranjo estratégico da vida. Ele se abre pela ação soberana da Graça sobre um ser humano que reconhece sua incapacidade de atravessar por si mesmo.

Aqui reside uma das tensões mais incômodas e necessárias para o pentecostalismo contemporâneo. O Espírito Santo não vem para ampliar o ego, legitimar prosperidades não examinadas ou ungir estruturas de segurança próprias. Ele vem para quebrar, esvaziar, deslocar e reconstruir. Onde o eu ainda passa inteiro, carregado de títulos, recursos e autoconfiança espiritual, o Reino não passa. Onde o eu é crucificado, ali o Espírito encontra espaço para habitar.

A agulha, portanto, não é lugar de permanência, mas de passagem. Ela não realiza a obra final; apenas abre caminho. Como lembra Machado de Assis em Um Apólogo, a agulha fere o tecido, mas é a linha que vem depois que costura e sustenta. No Reino de Deus, ocorre algo semelhante: a agulha representa a ruptura, o atravessamento, a quebra do orgulho; a Graça, como a linha, é quem restaura por dentro, recompõe e dá unidade. Só atravessa quem aceita ser perfurado no íntimo, refeito pela Cruz e pelo Espírito. O camelo carregado de vaidades não passa. Mas aquele que se despe, se rende e se dobra, esse atravessa.

A questão que permanece não é se Jesus exagerou na metáfora, mas se estamos dispostos a aceitar sua implicação. Se o Espírito Santo habita apenas onde houve abertura e rendição, até que ponto o cristão contemporâneo, com suas estruturas, discursos e conquistas, ainda cabe pelo fundo da agulha do Reino?

Referências bibliográficas

AQUINAS, Thomas, Saint. Catena aurea: commentary on the four Gospels collected out of the works of the Fathers. Oxford: John Henry Parker, 1841–1845. 4 vols. Preface signed by J. H. N. (John Henry Newman).

AVIGAD, Nahman. Discovering Jerusalem. Nashville: Thomas Nelson, 1980.

BARCLAY, William. O Evangelho de Mateus: comentário. São Paulo: Vida Nova, 2011.

BÍBLIA DE ESTUDO ARQUEOLÓGICA NVI. Bíblia arqueológica. Tradução da Nova Versão Internacional. São Paulo: Editora Vida, 2013.

GOLDSWORTHY, Graeme. Pregando o Evangelho Todo: a teologia bíblica para a Igreja. São Paulo: Vida Nova, 2022.

JEROME, Saint. Commentary on Matthew. Tradução de Thomas P. Scheck. Washington, DC: Catholic University of America Press, 2008.

MEYERS, Eric M. (ed.). The Oxford Encyclopedia of Archaeology in the Near East. Oxford: Oxford University Press, 1997.

RYRIE, Charles C. Estudo do Novo Testamento: comentário Ryrie. São Paulo: Mundo Cristão, 2018.

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THEOPHYLACT OF OHRID. The explanation of the Gospel according to Matthew. Tradução de Christopher Stade. House Springs: Chrysostom Press, 1992.

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WILSON, Marvin R. Our Father Abraham: Jewish roots of the Christian faith. Grand Rapids: Eerdmans, 1989.

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