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Modelo de oração de Josafá

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A narrativa de 2 Crônicas 20 registra um dos momentos de maior intensidade espiritual do reinado de Josafá. Diante da ameaça de uma coalizão de exércitos moabitas, amonitas e edomitas, o rei convoca todo o povo de Judá para um jejum solene e conduz uma oração pública que se tornou, ao longo da história da espiritualidade bíblica, um modelo paradigmático de intercessão fundamentada na fé. Mais do que um registro histórico, o texto apresenta uma estrutura teológica deliberada, construída para ensinar a comunidade a orar diante da crise, princípio que permanece atual para a Igreja de todos os tempos. Sob a ótica da teologia pentecostal, essa estrutura ganha relevância adicional, pois articula elementos que a espiritualidade pentecostal historicamente valoriza: a soberania de Deus como ponto de partida da fé, a atuação do Espírito Santo na assembleia orante, a dependência radical da graça divina e o louvor antecipado como expressão de confiança escatológica.

O primeiro movimento da oração de Josafá, reconhecer quem Deus é, não é mero preâmbulo retórico, mas fundamento teológico de toda petição legítima. Ao proclamar: “Não és tu, Deus, nos céus? Não dominas sobre todos os reinos das nações?” (2 Cr 20,6), o rei situa o problema dentro do horizonte da soberania divina antes mesmo de descrevê-lo. Essa ordem, Deus antes do problema, corresponde ao que a teologia pentecostal clássica trata como doxologia primária: a convicção de que toda oração autêntica nasce da contemplação do caráter de Deus, e não da urgência da circunstância (HORTON, 1995). Horton observa que a experiência pentecostal do batismo no Espírito Santo tende a intensificar essa dimensão adoratória, conduzindo o crente a uma consciência mais viva da transcendência e da proximidade de Deus simultaneamente.

O segundo elemento, a memória dos feitos divinos, expressa um princípio caro à teologia pentecostal. A convicção de que a lembrança pública da fidelidade de Deus fortalece a fé da comunidade e sustenta sua expectativa diante de novas provações (ARRINGTON, 1992). Josafá não apela a uma abstração teológica, mas à narrativa concreta da conquista da terra, atualizando o passado como garantia para o presente. Essa hermenêutica da memória é igualmente cara à espiritualidade pentecostal, que costuma vincular o testemunho pessoal e comunitário, isto é, a narração pública dos atos de Deus, à edificação da fé, na expectativa de que o Deus que agiu no passado continuará a agir.

O terceiro momento, a invocação explícita das promessas relativas ao templo e à aliança, revela que a oração de Josafá não é sentimentalismo religioso, mas exercício hermenêutico fundamentado na Palavra revelada. O discurso do rei retoma, de modo quase literal, a oração de dedicação do templo feita por Salomão (1 Rs 8), reafirmando o compromisso divino de ouvir o povo em tempo de calamidade. Esse procedimento antecipa um princípio central da teologia pentecostal da oração: orar as promessas, isto é, transformar o texto bíblico em linguagem de fé declarada diante de Deus (BRANDT; BICKET, 1993). Trata-se de prática recorrente na devoção pentecostal contemporânea, ainda que suas raízes estejam profundamente ancoradas na própria oração veterotestamentária.

A quarta e a quinta etapas, a exposição sincera do problema e o reconhecimento da incapacidade humana, constituem o núcleo antropológico da oração de Josafá. A célebre confissão “não sabemos o que fazer, porém os nossos olhos estão postos em ti” (2 Cr 20,12) expressa uma teologia da dependência que encontra eco direto na leitura pentecostal de Romanos 8: o crente ora com gemidos que ele mesmo não consegue articular plenamente, e é o Espírito quem intercede segundo a vontade de Deus (FEE, 1994). Fee demonstra que, para o apóstolo Paulo, a fraqueza humana não é obstáculo à oração eficaz, mas justamente o espaço em que a presença capacitadora do Espírito se manifesta com maior evidência. A oração autêntica, portanto, não é instrumento de autossuficiência espiritual, mas confissão de limitação humana que abre espaço para a ação soberana de Deus.

O sexto momento, esperar a resposta de Deus, encontra em 2 Crônicas 20,14 um dado teologicamente decisivo para a leitura pentecostal: é em meio à assembleia orante, reunida em silêncio e expectativa, que o Espírito do Senhor vem sobre Jaaziel, produzindo uma palavra profética de direção e ânimo. Stronstad demonstra que esse padrão, a manifestação carismática do Espírito surgindo no contexto do povo reunido diante de Deus, constitui uma trajetória que atravessa todo o Antigo Testamento e desemboca na experiência da Igreja em Lucas e Atos (STRONSTAD, 1984). Também na espiritualidade pentecostal contemporânea, dons como a profecia e a palavra de sabedoria emergem tipicamente dentro da congregação reunida e disposta a esperar. A espera, portanto, não é passividade, mas disposição ativa de receptividade espiritual.

O sétimo e último movimento, o louvor que antecede a vitória, é talvez o elemento mais distintivo da narrativa e o que mais ressoa com a espiritualidade pentecostal contemporânea. Antes de qualquer confirmação visível da libertação, cantores são postos à frente do exército proclamando: “Rendei graças ao Senhor, porque a sua misericórdia dura para sempre” (2 Cr 20,21). Arrington ressalta que, na teologia pentecostal, o louvor ocupa lugar central não apenas como resposta a bênçãos já recebidas, mas como ato de fé que declara a vitória de Deus antes mesmo de sua manifestação plena, na força do Espírito que habita e capacita a Igreja em adoração (ARRINGTON, 1992). Esse princípio costuma ser descrito, na prática pentecostal, em termos de sacrifício de louvor e guerra espiritual pela adoração, ideia que, embora formulada em linguagem contemporânea, encontra em Josafá um de seus paradigmas bíblicos mais claros.

Observa-se, ainda, que esse mesmo padrão estrutural (adoração, memória, promessa, súplica, dependência, espera e louvor) reaparece nas orações de Daniel (Dn 9), Neemias (Ne 1) e Salomão (1 Rs 8). Não se trata, portanto, de uma peculiaridade isolada de Josafá, mas de uma gramática comum da oração veterotestamentária, que a teologia pentecostal recebe, atualiza e pratica litúrgica e devocionalmente. Essa gramática articula dois polos aparentemente opostos, mas teologicamente complementares: a absoluta soberania de Deus e a real dependência humana, mediada pela ação do Espírito Santo, que capacita a assembleia a orar, a esperar e a louvar mesmo antes de ver a resposta completa.

O chamado modelo Josafá oferece, assim, mais do que um esquema mnemônico para a devoção pessoal. Constitui uma síntese teológica da oração bíblica que a teologia pentecostal soube apropriar-se com particular sensibilidade, por reconhecer na experiência do Espírito o elo vivo entre a memória da aliança e a esperança da intervenção divina. Recuperar essa estrutura para a prática eclesial contemporânea significa resgatar uma oração que começa em Deus, passa pela honestidade da fraqueza humana e culmina no louvor antecipado, não como técnica retórica, mas como expressão madura de fé pneumatológica diante da crise.

Referências

ARRINGTON, French L. Christian Doctrine: A Pentecostal Perspective. v. 1. Cleveland, TN: Pathway Press, 1992.

BRANDT, Robert L.; BICKET, Zenas J. The Spirit Helps Us Pray: A Biblical Theology of Prayer. Springfield: Gospel Publishing House, 1993.

FEE, Gordon D. God’s Empowering Presence: The Holy Spirit in the Letters of Paul. Peabody: Hendrickson Publishers, 1994.

HORTON, Stanley M. (Ed.). Systematic Theology: A Pentecostal Perspective. Rev. ed. Springfield: Logion Press, 1995.

STRONSTAD, Roger. The Charismatic Theology of St. Luke. Peabody: Hendrickson Publishers, 1984.

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