Menu

Modelo de oração de Josafá

Compartilhar no whatsapp
Compartilhar no telegram
Compartilhar no facebook
Compartilhar no email

A narrativa de 2 Crônicas 20 registra um dos momentos de maior intensidade espiritual do reinado de Josafá. Diante da ameaça de uma coalizão de exércitos moabitas, amonitas e edomitas, o rei convoca todo o povo de Judá para um jejum solene e conduz uma oração pública que se tornou, ao longo da história da espiritualidade bíblica, um modelo paradigmático de intercessão fundamentada na fé. Mais do que um registro histórico, o texto apresenta uma estrutura teológica deliberada, construída para ensinar a comunidade a orar diante da crise, princípio que permanece atual para a Igreja de todos os tempos. Sob a ótica da teologia pentecostal, essa estrutura ganha relevância adicional, pois articula elementos que a espiritualidade pentecostal historicamente valoriza: a soberania de Deus como ponto de partida da fé, a atuação do Espírito Santo na assembleia orante, a dependência radical da graça divina e o louvor antecipado como expressão de confiança escatológica.

O primeiro movimento da oração de Josafá, reconhecer quem Deus é, não é mero preâmbulo retórico, mas fundamento teológico de toda petição legítima. Ao proclamar: “Não és tu, Deus, nos céus? Não dominas sobre todos os reinos das nações?” (2 Cr 20,6), o rei situa o problema dentro do horizonte da soberania divina antes mesmo de descrevê-lo. Essa ordem, Deus antes do problema, corresponde ao que a teologia pentecostal clássica trata como doxologia primária: a convicção de que toda oração autêntica nasce da contemplação do caráter de Deus, e não da urgência da circunstância (HORTON, 1995). Horton observa que a experiência pentecostal do batismo no Espírito Santo tende a intensificar essa dimensão adoratória, conduzindo o crente a uma consciência mais viva da transcendência e da proximidade de Deus simultaneamente.

O segundo elemento, a memória dos feitos divinos, expressa um princípio caro à teologia pentecostal. A convicção de que a lembrança pública da fidelidade de Deus fortalece a fé da comunidade e sustenta sua expectativa diante de novas provações (ARRINGTON, 1992). Josafá não apela a uma abstração teológica, mas à narrativa concreta da conquista da terra, atualizando o passado como garantia para o presente. Essa hermenêutica da memória é igualmente cara à espiritualidade pentecostal, que costuma vincular o testemunho pessoal e comunitário, isto é, a narração pública dos atos de Deus, à edificação da fé, na expectativa de que o Deus que agiu no passado continuará a agir.

O terceiro momento, a invocação explícita das promessas relativas ao templo e à aliança, revela que a oração de Josafá não é sentimentalismo religioso, mas exercício hermenêutico fundamentado na Palavra revelada. O discurso do rei retoma, de modo quase literal, a oração de dedicação do templo feita por Salomão (1 Rs 8), reafirmando o compromisso divino de ouvir o povo em tempo de calamidade. Esse procedimento antecipa um princípio central da teologia pentecostal da oração: orar as promessas, isto é, transformar o texto bíblico em linguagem de fé declarada diante de Deus (BRANDT; BICKET, 1993). Trata-se de prática recorrente na devoção pentecostal contemporânea, ainda que suas raízes estejam profundamente ancoradas na própria oração veterotestamentária.

A quarta e a quinta etapas, a exposição sincera do problema e o reconhecimento da incapacidade humana, constituem o núcleo antropológico da oração de Josafá. A célebre confissão “não sabemos o que fazer, porém os nossos olhos estão postos em ti” (2 Cr 20,12) expressa uma teologia da dependência que encontra eco direto na leitura pentecostal de Romanos 8: o crente ora com gemidos que ele mesmo não consegue articular plenamente, e é o Espírito quem intercede segundo a vontade de Deus (FEE, 1994). Fee demonstra que, para o apóstolo Paulo, a fraqueza humana não é obstáculo à oração eficaz, mas justamente o espaço em que a presença capacitadora do Espírito se manifesta com maior evidência. A oração autêntica, portanto, não é instrumento de autossuficiência espiritual, mas confissão de limitação humana que abre espaço para a ação soberana de Deus.

O sexto momento, esperar a resposta de Deus, encontra em 2 Crônicas 20,14 um dado teologicamente decisivo para a leitura pentecostal: é em meio à assembleia orante, reunida em silêncio e expectativa, que o Espírito do Senhor vem sobre Jaaziel, produzindo uma palavra profética de direção e ânimo. Stronstad demonstra que esse padrão, a manifestação carismática do Espírito surgindo no contexto do povo reunido diante de Deus, constitui uma trajetória que atravessa todo o Antigo Testamento e desemboca na experiência da Igreja em Lucas e Atos (STRONSTAD, 1984). Também na espiritualidade pentecostal contemporânea, dons como a profecia e a palavra de sabedoria emergem tipicamente dentro da congregação reunida e disposta a esperar. A espera, portanto, não é passividade, mas disposição ativa de receptividade espiritual.

O sétimo e último movimento, o louvor que antecede a vitória, é talvez o elemento mais distintivo da narrativa e o que mais ressoa com a espiritualidade pentecostal contemporânea. Antes de qualquer confirmação visível da libertação, cantores são postos à frente do exército proclamando: “Rendei graças ao Senhor, porque a sua misericórdia dura para sempre” (2 Cr 20,21). Arrington ressalta que, na teologia pentecostal, o louvor ocupa lugar central não apenas como resposta a bênçãos já recebidas, mas como ato de fé que declara a vitória de Deus antes mesmo de sua manifestação plena, na força do Espírito que habita e capacita a Igreja em adoração (ARRINGTON, 1992). Esse princípio costuma ser descrito, na prática pentecostal, em termos de sacrifício de louvor e guerra espiritual pela adoração, ideia que, embora formulada em linguagem contemporânea, encontra em Josafá um de seus paradigmas bíblicos mais claros.

Observa-se, ainda, que esse mesmo padrão estrutural (adoração, memória, promessa, súplica, dependência, espera e louvor) reaparece nas orações de Daniel (Dn 9), Neemias (Ne 1) e Salomão (1 Rs 8). Não se trata, portanto, de uma peculiaridade isolada de Josafá, mas de uma gramática comum da oração veterotestamentária, que a teologia pentecostal recebe, atualiza e pratica litúrgica e devocionalmente. Essa gramática articula dois polos aparentemente opostos, mas teologicamente complementares: a absoluta soberania de Deus e a real dependência humana, mediada pela ação do Espírito Santo, que capacita a assembleia a orar, a esperar e a louvar mesmo antes de ver a resposta completa.

O chamado modelo Josafá oferece, assim, mais do que um esquema mnemônico para a devoção pessoal. Constitui uma síntese teológica da oração bíblica que a teologia pentecostal soube apropriar-se com particular sensibilidade, por reconhecer na experiência do Espírito o elo vivo entre a memória da aliança e a esperança da intervenção divina. Recuperar essa estrutura para a prática eclesial contemporânea significa resgatar uma oração que começa em Deus, passa pela honestidade da fraqueza humana e culmina no louvor antecipado, não como técnica retórica, mas como expressão madura de fé pneumatológica diante da crise.

Referências

ARRINGTON, French L. Christian Doctrine: A Pentecostal Perspective. v. 1. Cleveland, TN: Pathway Press, 1992.

BRANDT, Robert L.; BICKET, Zenas J. The Spirit Helps Us Pray: A Biblical Theology of Prayer. Springfield: Gospel Publishing House, 1993.

FEE, Gordon D. God’s Empowering Presence: The Holy Spirit in the Letters of Paul. Peabody: Hendrickson Publishers, 1994.

HORTON, Stanley M. (Ed.). Systematic Theology: A Pentecostal Perspective. Rev. ed. Springfield: Logion Press, 1995.

STRONSTAD, Roger. The Charismatic Theology of St. Luke. Peabody: Hendrickson Publishers, 1984.

Publicações Relacionadas

Teologia
André Batalhão

A inversão da honra

Eclesiastes 10.7 registra uma observação seca e incômoda do Pregador, “tenho visto servos montados em cavalos, enquanto príncipes andam a pé como servos”. A frase

Leia mais
Teologia
André Batalhão

Pecado de comissão e pecado de omissão

Pecado de comissão e pecado de omissão não são categorias criadas pelos escritores do Novo Testamento. A distinção nasceu na tradição teológica latina, séculos depois

Leia mais

Outras Publicações

Our Faith
Verônica de Souza

We have the mind of Christ.

For, “Who has known the mind of the Lord so as to instruct him?”  But we have the mind of Christ.  (1 Corinthians 2:16)  Those

Leia mais
Devocional
Déborah Freire

Abraão

Abraão passou por momentos de difícil posicionamento. Deus o manda sair da sua terra e ir para um lugar desconhecido, jamais pisado por ele e

Leia mais